Afogamento de crianças acontece em segundos e sem barulho, alerta ISAB
– Entrevista à revista Health News | 6 de maio de 2026 –
Com a chegada do calor, o uso de piscinas, praias e outros espaços aquáticos volta a fazer parte da rotina de muitas famílias. Mas com este aumento da exposição à água regressa também um risco frequentemente subestimado: o afogamento infantil.
Em Portugal, este tipo de acidente está entre as principais causas de morte acidental em crianças. E, ao contrário da perceção comum, pode acontecer de forma extremamente rápida e silenciosa — em poucos segundos, sem gritos, sem respingos evidentes e sem qualquer sinal de alerta imediato.
Um perigo silencioso e muitas vezes invisível
Segundo especialistas, o maior erro na vigilância de crianças junto à água não é apenas a distração, mas a falsa sensação de segurança.
Raquel Urbano, responsável pelo ISAB – Instituto de Sobrevivência Aquática para Bebés, entidade que representa em Portugal o método Infant Swimming Resource na Zona Norte, alerta para este problema.
“Os acidentes acontecem em segundos e muitas vezes quando há vários adultos por perto. O problema é que todos assumem que alguém está a vigiar — e esse é um dos maiores erros”, afirma.
Este comportamento coletivo cria uma ilusão de segurança: todos acreditam que alguém está atento, mas nem sempre isso acontece de forma efetiva.
Primavera e verão: períodos de maior risco
Com a chegada da primavera e o início do verão, o risco aumenta de forma significativa. As famílias começam a abrir piscinas, planeiam férias e passam mais tempo em ambientes aquáticos.
Foi precisamente a partir de uma experiência pessoal em contexto familiar que Raquel Urbano decidiu dedicar-se a esta área. Esse episódio levou-a a refletir sobre como o perigo pode ser facilmente ignorado, mesmo em ambientes considerados seguros ou controlados.
Afogamento infantil não é como aparece nos filmes
Um dos principais mitos que os especialistas procuram combater é a ideia de que o afogamento é um evento ruidoso e facilmente identificável.
Na realidade, na maioria dos casos, trata-se de um processo silencioso. Uma criança pode estar em dificuldades dentro de água sem conseguir chamar por ajuda, sem movimentos evidentes e sem alertar quem está por perto.
“Temos de mudar a forma como olhamos para este tema. A prevenção não é opcional — é essencial”, reforça a responsável do ISAB.
A prevenção tem várias camadas
Para os especialistas em segurança aquática, não existe uma única solução que elimine o risco de afogamento infantil. A proteção eficaz resulta de um conjunto de medidas combinadas.
Entre as principais estratégias de prevenção destacam-se:
- vigilância ativa e constante por parte dos adultos
- controlo rigoroso de acessos a piscinas e zonas de água
- eliminação de distrações, como telemóveis e outros ecrãs
- preparação para situações de emergência
A ideia central é simples: quanto mais camadas de proteção existirem, menor é a probabilidade de acidente.
“Não existe uma única solução. A segurança resulta de várias camadas. E quando todas falham, a capacidade da própria criança pode fazer a diferença”, sublinha Raquel Urbano.
Um alerta num país rodeado de água
Portugal é um país com forte ligação ao meio aquático — praias, piscinas, rios e albufeiras fazem parte da paisagem e do quotidiano de muitas famílias.
Nesse contexto, o alerta torna-se ainda mais relevante: a prevenção começa antes do acidente acontecer.
Mais do que um alerta sazonal, trata-se de uma mensagem contínua: junto à água, segundos podem ser decisivos.